Neverland não não também não

quarta-feira, 13 de novembro de 2019

Diário de Leitura | Admirável Mundo Novo - Aldous Huxley

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  Tendo em mente que a resenha possui um caráter mais formal, gostaria de deixar aqui registrado um diário de leitura. O intuito disto se dá em colocar pensamentos e associações sobre o livro, como uma conversa comigo mesma. Espero que de alguma forma, converse com vocês também.


01 de Novembro de 2019.


  O Prefácio muito me parece interessante, principalmente nas associações do que é ser Selvagem, da sanidade de espírito que lhe cabe. O autor não aprofunda muito suas concepções sobre, e há até momentos em que eu discorde, mas acabou por me lembrar do arquétipo da Mulher Selvagem, que, de fato, se refere à sanidade de espírito.

  Já no primeiro capítulo, pareceu-me interessante a ideia da Sala de Predestinação Social a medida em que evidência como a ciência utópica/distópica acaba visando aproximar-se dos poderes de criação divina, com exceção de que não há livre arbítrio, apenas ciência, técnica e alucinógenos (alienação). Também é muito intenso como há uma narração cinematográfica a medida em que vão se passando várias cenas simultâneas.

  Outros dois elementos fantásticos para se pensar ainda introdutóriamente é a ideia de "Estado Mundial", que conversa diretamente com o lema planetário de comunidade, identidade e estabilidade, e a medição temporal a partir de Ford - considere ainda que o livro foi escrito em 1931.

  No próximo capítulo, já se fala de um condicionamento "neopavloviano", que corresponderia à "educação" daquela sociedade, e é algo cruel que muito me fez lembrar dos processos vividos pelo Alex em Laranja Mecânica, só que realizados antes de qualquer crime, ainda em estágios muito infantis.


02 de Novembro de 2019.


  Eu definitivamente esperava assuntos como consumismo, mas o tema do machismo naturalizado me surpreendeu em uma utopia pensada nesta época. Outro tema muito abordado neste quarto capítulo é a divisão social em castas, que viria a inspirar praticamente todas as distopias YA contemporâneas.
  No próximo, me dei conta de como os nomes escolhidos (Marx, Engels, "Lenina" quem sabe) são os nomes de figuras da época em que o livro foi escrito.


03 de Novembro de 2019.


  Se mostra muito interessante como o personagem principal da distopia (e, por natureza protagonística, o que pensa diferente de todos), apesar de ter breves anseios de revolução, ainda assim é passível de todos os seus (literais) condicionamentos. Bernard, inclusive, luta contra si mesmo para pensar de forma distinta.


04 de Novembro de 2019.

  É muito interessante como o livro se retrata aos "povos selvagens" não civilizados pelos recursos de difícil extração e valores muito superiores ao que se considera plausível. É bem uma menção à colonização mesmo, dali só se retira, não se contribui (ainda que tais contribuições também sejam igualmente dispensáveis, uma vez que são igualmente perversas).
  Nesse sentido ainda, se formos realmente parar para notar, toda a sociedade retratada no livro é uma sociedade racista com suas ideias de seleção genética, eugenia e divisão social de classe/casta.


05 de Novembro de 2019.


  Chegamos a outro nível narrativo conforme John aparece: o único homem que virá a ser inserido naquela sociedade que foi nascido e não decantado. Mais que isso, ele não foi condicionado. Sendo assim, está puro em suas emoções, não sendo adepto do soma. Tem também muitas questões com pertencimentos, uma vez que os outros povos não o aceitam por ser física e culturalmente diverso (uma vez que a mãe dele era condicionada).


07 de Novembro de 2019.


  Bernard então começa a ter seus "dias de glória", o soma do ego. Este último, inflado pela primeira vez na vida, lhe aproxima mais dos outros membros da sociedade, mostrando o quanto ele é passível à felicidade que aquele grupo tem a oferecer.


  Concluindo a experiência do diário de leitura, gostaria de dizer que foi um método bastante interessante de se pensar um livro, como uma conversa comigo mesma. É uma fórmula muito eficiente para nós que não temos clube de leitura, alguém pra comentar ou não somos blogueiras que tem mil seguidores pra interagir. É um formato mais natural de falar sobre um livro que uma resenha também. O único defeito do método sou eu mesma que esqueço de atualizar sempre que leio. Mas, no geral, pareceu funcionar bem. O que vocês acharam?

  Já sobre o livro, fiquei muito contente de ter lido esse livro agora embora já tivesse o interesse de ler há uns cinco anos atrás, porque minha bagagem de vida é totalmente diferente nesse momento. Achei abordagens muito geográficas que me interessaram e uma leitura muito fluida. Não me impressionou tanto quanto 1964, que é mais cru, mas isso pode também ter sido um efeito da época de leitura. No entanto, Admirável Mundo Novo é um livro que te faz questionar muito, que se esforça em te convencer de que há uma lógica na "civilização" ao mesmo tempo em que mostra sua crueldade. O final é também muito impactante e a mudança e os (resquícios) de humanidade dos personagens são impressionantes. Um clássico é um clássico, recomendação na certa!



quarta-feira, 25 de setembro de 2019

Resenha | As Alegrias da Maternidade - Buchi Emecheta



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 As Alegrias da Maternidade não é apenas um livro, mas uma experiência.

  Te proponho inicialmente a tirar as lentes ocidentais - e tantas vezes colonizadoras - e se abrir às possibilidades de uma cultura completamente diferente. Obviamente, é uma tarefa difícil, afinal, muitas vezes você vai se ver discordando de determinados pensamentos. Mas, surpreendentemente, ainda mais vezes você vai se ver pensando como os personagens e compreendendo suas ações, sentimentos e ideias.

  O livro fala sobre Nnu Ego, uma mulher respeitada em Ibuza por ser filha do grande chefe Agbadi e de Ona - a história desses dois inclusive é digna de deuses. Ela procura então se casar para realizar seu sonho: ser mãe. Essa questão é desenvolvida no livro em muitas instâncias: a nível de dever, de amor, de perda, de reparação, de esperanças, frustrações, e tantas mais.

  Em certo momento da história, Nnu Ego muda-se então para Lagos, ainda na Nigéria , uma cidade mais urbana e colonizada, onde tudo é diferente de sua realidade agrária, inclusive os homens. Discute-se então a hombridade de seu marido; as mudanças do papel da mulher além da cuidadora, mas também de provedora; as relações escalares do colonial, onde não mais se tem escravos ao pé da letra, mas relações que se equiparam; as consequências do ser mulher em contextos de dificuldade para o ser homem; as diferenças culturais do espaço agrário e do urbano; entre outros temas. Fica evidente assim o quanto o livro é riquíssimo em discussões que são passadas apenas através das vivências dos personagens.

  Outra possibilidade de análise é a relação de Nnu Ego com as outras esposas. Adaku, por exemplo, era ambiciosa,e em tantas partes do livro a detestei. E então percebi que, de certa forma, me identificava com ela. Ela era a esposa que queria mais, mais para si e para suas crianças, não suportava a vida simples de ser a esposa de alguém. Por muitas vezes, se não fosse a rivalidade, ela mostrou que seria uma boa amiga de Nnu Ego. Assim como a esposa mais velha que a aconselha, ou a mais nova, que se sente filha dela. Há uma sororidade potencial que acaba não se desenvolvendo pela importância dada à assuntos familiares.

  Assuntos familiares esses que pautam a identidade dessas pessoas. O filho mais velho assume o protagonismo, e as funções sociais de cada um se mistura com ares de união. Há uma forte relação de responsabilidade um pelo outro.

  Outro ponto de destaque é para a religiosidade e a figura do chi, que aparece como uma divindade que rege o ser e, ao mesmo tempo que se mistura a ele, é uma individualidade. Isto traz à tona a importância da ancestralidade e o quanto há uma proximidade entre o Divino e a própria vida da pessoa.
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  Os momentos finais são também muito importantes para demonstrar a evolução do filtro do olhar do leitor, uma vez que julgamos mais uma vez aqueles personagens, mas sob uma nova perspectiva: a perspectiva de quem viu todas as suas vidas e agora os compreende.

  As Alegrias da Maternidade se mostra uma obra de arte produzida pela escritora Buchi Emecheta, que muito bem soube trabalhar com a ironia do título. É um livro fluido, ainda que com muitos momentos difíceis de ler. E é imergindo na história que saímos do nosso "mais do mesmo" para ver a vida sob uma outra ótica cultural. Alegramo-nos com suas alegrias, mas também frustamo-nos com suas frustrações.

quinta-feira, 5 de setembro de 2019

O Milagre da Manhã: Qual é a Real Aplicabilidade?



O Milagre da Manhã de Hal Elrod é um best seller queridíssimo pelos blogs de produtividade e relutei bastante em lê-lo justamente por passar por um momento de certa aversão a este produzir, produzir, produzir sem sentido. E embora o livro tenha uma abordagem bastente voltada para o sucesso, você pode lê-lo com olhos de busca de qualidade de vida, o que torna a leitura bem agradável. O fluxo de leitura é bem rápido, além de o livro ter apenas dez capítulos. Mas o ideal é ir lendo e anotando (e buscando praticar, é claro).

Resultado de imagem para o milagre da manhã pdfNão venho aqui também para apenas reproduzir o que o livro diz como se fosse algo totalmente novo, mas posso resumir as seis atividades.


  1. Silêncio.          
  2. Afirmações.
  3. Escrita.
  4. Visualizações.
  5. Exercícios.



Não necessariamente nesta ordem, uma vez que a adaptação para o seu perfil é o mínimo a ser feito para a manutenção do hábito fazer sentido pra você. E é neste sentido que venho nesse post dar meus pareceres sobre a aplicação desta técnica em minha vida para que vocês tenham uma noção de como é antes de procurarem aplicar também.

Dia 1

A primeira manhã só não foi um fracasso total por eu ter aprendido algumas coisas. Acordei mais tarde do que planejei e só consegui realizar uma das tarefas propostas. A primeira lição aprendida foi, que seria um conselho que o autor daria logo em seguida no livro, não fazer nada na cama. Começar pelo silêncio em uma cama macia e confortável logo nos leva de volta ao sono profundo.

Dia 2

Na segunda manhã, eu já quase tinha terminado de ler o livro, então já tinha aprendido muitas dicas, embora não colocasse em prática todos. Não consegui acordar uma hora antes do que normalmente acordo, mas não me cobrei muito, uma vez que ainda estou de férias (tenha dó). Não fiz a estratégia dos seis minutos, mas também não alcancei a um hora. Meia hora foram mais que suficientes. Não senti os benefícios de imediato, mas foi uma experiência interessante.

Dia 3

Passando por uma maratona de compromissos pela manhã, não procurei estender as atividades, realizando-lhes ainda assim com calma. Insisti no erro de realizar as atividades na cama, mas, menos cansada, consegui realizá-las mesmo assim. Reparei que mantenho bem o padrão de meia hora de milagre da manhã, funcionando bem para mim esta adaptação.

Dia 4

A partir daqui, finalmente, terminei de ler o livro e já estava mais adaptada a naturalidade de acordar e realizar as atividades. Faço pequenas alterações diárias na ordem e tipo de ação para cada atividade, de forma a tornar o processo mais fluido.

Dia 5

Para este dia, experimentei acrescentar exercícios e visualizações promovidas pelo Pinterest, mas como são atividades que dependem do celular, deixei-as para o final, para ir despertando bem antes de pegar no aparelho. Funcionaram bem e as afirmações e visualizações estão funcionando muito mais que anteriormente.


  Esforcei-me ainda por mais quatro dias, adaptando uma coisa aqui, mudando outra coisa ali. Mas senti-me muito numa obriação em muitos dos aspectos. Obviamente, o próprio autor sugere que tentemos manter o hábito por um mês, então pouco mais de uma semana não bastaria. No entanto, por me conhecer, sei que não funcionaria muito melhor que isso. Apesar disso, um dos hábitos que gostaria de manter é a escrita pela manhã, assim, realmente, não há como o sono te fazer esquecer pela noite.
  No geral, estas foram as minhas percepções e, apesar de ter escolhido não continuar, ainda acredito que vocês deveriam tentar e tirar suas próprias conclusões!


quarta-feira, 4 de setembro de 2019

Bienal Rio 2019: Como Não Passar Aperto



Estamos na metade desta Bienal e ainda dá tempo de você conferir esse evento incrível, mas obviamente, evitando passar perrengue. Já faz três edições que preparo postagens especiais sobre, e essa edição não vai ser diferente. Para conferir a edição de 2017 clique aqui e para a de 2015 clique aqui.

1. Transporte e Horário

Saiba como chegar com antecedência e se for de transporte público se programe para não pegar lotações. Às vezes vamos em dia de semana para pegar uma bienal mais tranquila - e mais povoada por escolas, o que não necessariamente é sinônimo de tranquilo -, mas esquecemos que o BRT, por exemplo, tem horários de pico de lotação com as pessoas que trabalham. Assim, evite ir de 6-8h e voltar às 16-18h.

2. Roupas Confortáveis

Essa é uma dica clássica, mas que mesmo assim muita gente se enrola (inclusive eu). Calça jeans é sempre uma boa pedida pra poder sentar no chão, por exemplo. Tênis confortáveis também, mas não adianta ser aquele tênis novo que você usou por meia hora uma vez e acha que é confortável, é aquele tênis de guerra que você tem certeza que dá conta de andar muito e cuidar dos seus pés.

3. Programação

Veja a programação com antecedência para não acabar perdendo uma presença ou evento que te interessa. É um tanto quanto lamentável estar no mesmo lugar que aquele autor e não poder vê-lo porque não se programou pra isso. Inclusive, dependendo do autor, pode ser bom destinar um dia para ir vê-lo e conhecer no geral o evento, e outro dia só para comprar devido ao tempo que pode levar.

4. Livros

Pesquise o preço dos livros que te interessam antes de ir à bienal e compare o preço dos estandes. Mas se você achar um livro que te interessa a um preço muito barato não deixe de comprar achando que vai achar em outro a 10 reais mais barato, por exemplo. Ora, se já é muito mais barato do que você tinha pesquisado antes, certamente alguém vai notar isso também e levar o livro que você quer. Então, quando você voltar ao estande vai ver que seu favorito não está mais lá e haja frustração. Digo porque vivi.

5. Mapa

Use o mapa do evento e marque os estandes que mais te interessam para que você possa voltar neles sem muita dificuldade depois para comprar seus livros. O mapa do evento também é ótimo para não perder muito tempo estando perdido.



Agora saindo um pouco das dicas, queria fazer uns comentários gerais sobre minhas experiências. Os livros não estavam tão baratos, e os outlets não tiveram achados tão fáceis quanto nos anos anteriores (estavam até mais bagunçados inclusives). Mas, no geral, foi um evento muito bom para me reconectar pelo gosto pela leitura e pra, de certa forma, me reencontrar com uma eu mais jovem (e mais contente).

1. O Mundo de Sofia - Jostein Gaarder
2. Love Is: Ilustrações sobre o Amor - Puung  (Esse é pra dar de presente 💙)
3. O Diário de Anne Frank - Anne Frank
4. Admirável Mundo Novo - Aldous Huxley


Bem, é basicamente isto. Tenham um bom evento e me digam o que acharam dele, se as dicas serviram e se vocês têm algo pra compartilhar!


terça-feira, 13 de agosto de 2019

O Menino queDescobriu o Vento: Uma Abordagem Geográfica

  O seguinte texto foi elaborado para uma disciplina da faculdade onde tive que fazer uma resenha de uma produção artística que retratasse um país africano além dos estereótipos. Pensado para sala de aula (ou além dela), coloquei em prática em um pré-vestibular social como uma proposta de aulão e tive bons resultados com os alunos. Espero que seja de bom proveito e, se utilizaras explanações, não deixe de atribuir os créditos e de, é claro, me contar como foi a experiência!


  O filme O Menino que Descobriu o Vento produzido pelo diretor Chiwetel Ejiofor no ano de 2019 é baseado em livro de mesmo nome escrito por William Kamkwamba e Bryan Mealer. A história é real e baseada na vida do mesmo William, que cresceu na vila de Wimbe, no Malaui. Por volta de 2001, uma série de acontecimentos marca sua vida, que passam por questões familiares, políticas, econômicas, culturais, de fome e de criação. Com a crise que se estabelece não apenas em seu povoado como em todo país, William é obrigado a deixar de frequentar a escola. Mesmo assim, ele resiste e com a ajuda de seus primos e dos livros da biblioteca, tem uma ideia inventiva para solucionar o problema da colheita: moinhos de vento para bombear água e irrigar os campos.

  Procurei dividir o filme em seus principais momentos, evitando possíveis “spoilers”, mas abordando os pontos geográficos centrais que podem ser abordados em sala. Sendo assim, o filme é dividido nos seguintes momentos:

  •        Kufesa, o plantio – com a perda de um familiar, sua vida se reestrutura. O clima local quente e seco, marcado por ventos fortes e chuvas torrenciais, define a colheita local. Mesmo vendendo o Malaui grãos excedentes para Quênia e Moçambique, o Estado passa por uma crise econômica que nem o FMI e o Banco Mundial puderam prever.
  •       Kukula, o crescimento – a democracia é narrada como “madeira importada, apodrece rápido”, o que demonstra logo em seguida que a democracia é na verdade uma ditadura disfarçada, com ampla repressão local aos insatisfeitos. Neste momento, compreende-se melhor a organização do país, havendo além do presidente, chefes locais que se responsabilizam pelo seu povo.
  •       Kukola, a colheita – com a falta de chuva não há plantio que cresça, e os preços dos grãos crescem exorbitantemente.
  •       Njala, a fome – um dos personagens diz ser o fim do tempo dos livros para ser o tempo do arado. No entanto, se não há condições biológicas para tal, o arado é em vão.
  •       Mphepa, o vento – por fim, William consegue apoio geral, vista a falta de alternativa das pessoas e a partir da ciência dos livros, pôde-se desenvolver a técnica e reverter as condições. Sendo assim, o tempo dos livros pode ser também o tempo do arado.

  O filme e o livro apresentam algumas diferenças, possuindo o segundo mais riqueza de detalhes. Por exemplo, no livro, é apresentado o fato de a fome ser quase um evento cíclico naquela região do Malaui; além disso, William não recebe apoio além do dos primos até que o primeiro moinho esteja pronto, servindo este apenas para energia elétrica de sua casa. Apenas mais tarde ele consegue desenvolver sua tecnologia voltada para o plantio, alem de poder aperfeiçoá-la conforme oportunidades de estudos foram aparecendo em sua vida.

  É interessante também notar que os momentos se referem à natureza, ao homem e, portanto, às suas relações. Ainda assim, as duas obras mostram perfeitamente que - diferentemente das sociedades ocidentais altamente tecnificadas e afastadas do meio natural -, a aproximação cultural do homem com a natureza permite que a técnica contribua ainda mais com essa interação.

sexta-feira, 9 de agosto de 2019

Euphoria: Tão Crua que Dói de Ver (E isso é Bom)

 Se eu tivesse que definir Euphoria em uma palavra seria crua. É uma série crua, feita para ser imersiva e perturbadora. Desviei meus olhos inúmeras vezes da tela, pode ser gatilho para muita gente, mas tem mensagens a serem passadas, embora nem todas tão explícitas. É entretenimento, mas também é feita pra pensar. Daquelas séries que se assiste e se continua pensando sobre um tempo, muita coisa pra processar.

  Talvez o paralelo de Skins dessa geração, já me desculpo previamente por não me privar de comparações. Ora, Skins foi a série adolescente que desconcertou os pais e se tornou a favorita dos adolescentes, tendo impacto nas  redes sociais - com os clássicos gifs em preto e branco da Effy. Mas era evidente a romantização de distúrbios mentais, drogas e relacionamentos tortos. Euphoria mostra tudo isso, de forma ainda mais impactante, e promove uma conscientização além do discurso. As consequências dos atos que os personagens enfrentam são tão impactantes que criam um senso de distanciamento, entende? As cenas  são difíceis de ver.

  Imagino que os pais da geração tem o que aprender da mentalidade da juventude contemporânea. Quero dizer, tem coisas que parecem absurdas pra mim que sou da geração anterior (?), que dirá para os pais. Por exemplo, os nudes são um tema frequente, comum a quase todos os personagens, é usada nos termos da Rue como "moeda do amor", o que pra mim é inconcebível, mas que não é difícil de imaginar como um pensamento recorrente pra alguém que ainda está consolidando suas próprias ideias.

Personagens

Os personagens são aprofundados especificamente um por episódio, embora se desenvolvam também nos outros. Voltamos às suas infâncias e vemos (e ouvimos) suas vidas através da Rue - que é uma excelente narradora. Suas justificativas são mais profundas que um simples "eu quis" ou "estou chateado com uma coisinha em meio aos meus privilégios". Aliás, temos um ou dois personagens que tomam atitudes movidas por isso e são justamente eles os menos favoritos (um deles até o odiado). Este último, é o Nate. É o personagem que mais tem perfil de Riverdale, quase deslocado da série, até que no final as histórias se costuram melhor. Ele só não é totalmente problemático por si só justamente pelo aprofundamento familiar que a história constrói, mas isso não o torna menos desprezível. Já o pai do Nate merecia um fim melhor (ou pior, talvez), o cara tem certamente algum distúrbio, mas não acho que ele vá ter muito mais destaque por não ser parte do núcleo jovem.

  De resto, os personagens são carismáticos e facilmente compreensíveis e adoráveis. Façamos um apanhado por núcleo. Cassie é uma das que mais quero ver desenvolvida nas outras temporadas, seu potencial além do rostinho bonito foi feito pra ser mostrado. McKay eu não quero nem ver perto da Cassie mais, no entanto, ele ainda tem o que crescer, ainda mais com os eventos chocantes acontecidos nessa temporada. Lexi tem sido evidentemente guardada para mostrar-se com destaque na próxima. Há uma quarta amiga do grupo da Cassie, Maddy e Kat - de quem iremos falar já já - que foi bem esquecida também, se não forem fazer nada com ela futuramente, confesso que vai haver certa decepção, afinal, seria apenas uma centralidade de figurante. A Kat é lindíssima que tem sua virada de personalidade conforme se descobre sexualmente. Ela não tem das melhores soluções para os seus problemas e ainda tem o que colocar no lugar em sua personalidade, mas é uma das favoritas da série. Maddy teria tudo para ser a patricinha mimada da série, com a excessão de que ela não é rica, nem branca. Ela é uma lindíssima latina que descobre que pode ser tudo o que quiser se for confiante, e isso é uma mensagem poderosíssima. Se ela não tivesse desperdiçando seu próprio potencial fazendo sua vida girar em torno do Nate. É sério, pra próxima temporada, esteja decretada o fim desse casal e dada a largada do exponencial sucesso da Maddy.

  A forma natural como tratam a transsexualidade de Jules também é admirável, há as dificuldades da infância e algumas poucas situações de preconceito. Mas é evidente que ela já está em outro nível, discutindo questões de feminilidade e sexualidade. A irmã da Rue também já apareceu enquanto personalidade, mas enquanto sua puberdade vai passando, ainda tem muito pra aparecer. O Fez é um cara fácil de empatizar conforme se vê a relação familiar e de personalidade, embora o caráter não seja dos melhores sempre. E a Rue é a coisa mais preciosa de Euphoria. Cheia de potencial e de coisas lindas por ser e fazer, infelizmente passa por uma situação muito difícil com drogas. A situação dela é representada ao extremo sem glamourização nem se quer dos motivos. Espero que a Rue possa realmente se recuperar nas próximas temporadas.

Produção

É evidentemente uma produção que deu muito trabalho pra fazer. A cenografia é linda com destaque pras luzes, de forma que assistir por si só é uma experiência como li em um sábio comentário no Youtube. Ás vezes a iluminação fica muito artificial, mas o compromisso da série nesse sentido é além-realidade, é mais uma coisa sensorial mesmo. O roteiro não me chamou muito atenção como um todo, o destaque é mais para a narração da Rue e da carta da mãe dela no último episódio. Por essas evidências já se dá pra ver que os roteiristas são bons, mas que deixam a desejar na minha opinião nos diálogos. Não que eles sejam antinaturais, mas acho que faltou um pouco do "icônico" que a série oferece em muitos sentidos. E já que falamos nesta palavra, o que falar das maquiagens, não é mesmo? Todas as meninas parecem fadas futuristas ou coisa do tipo. Dá vontade de arrumar uma oportunidade pra fazer igual, afinal a forma como se expressam através dela é fantástica. Por fim, a trilha sonora é impecável, mal terminei de assistir já estava atrás de playlists no Spotify.


A série é excelente e mal posso esperar pela próxima temporada. Ela é um alerta da HBO para a Netflix de que eles estão aí pra dar trabalho, até porque eles preferem investir alto em algumas séries e dar continuidade ao invés de atirar para todos os lados e cancelar um monte que possuía grande potencial.


segunda-feira, 29 de julho de 2019

Me diga como ser artista, mas nem tanto...


  Ontem assisti um vídeo que começava com um poema de Bukowski que dizia basicamente para não fazer nada que não te tire do eixo, que não te seja uma pulsão tremenda. Nunca li nada do velho - com todo respeito, é sabido que este é seu título - além de poemas deprimentes muito típicos de jovens adultos. Mas esse poema que vos falo me encheu os olhos.

  Para minha surpresa o video continuou no sentido de falar que nada disso era verdade, que era preciso disciplina muito mais do que pulsões. Ora, sou eu a dizer isso a mim mesma e a todos os outros a vida inteira, mas quando o narrador me disse aquilo, senti-me ofendida. Isso não faz a arte parecer um produto?

  Talvez haja um meio termo, algo entre o vício e a virtude. Mas é preciso um tato pra reconhecê-lo que desconheço um artista que possua. Um artista tem todos os sentidos expandidos a ponto de êxtase, mas talvez tato seja o menos aflorado deles como uma medida compensatória.

  O narrador continua seu trabalho alegando que o artista que não faz arte é um alguém quase enlouquecido que supre suas necessidades por viver seus próprios dramas. Não seria isso viver artisticamente? Pelo menos até seu próprio drama arruinar sua vida. Talvez eu não estea vivendo meus dramas e minhas artes direito. Ou talvez esteja e só perceba com o passar dos anos.

  O fato é que entre muita reflexão com um vídeo de 10 minutos que me mandava escrever, estou eu aqui escrevendo mesmo sem saber se concordo ou discordo. Uma procrastinação sincera de escrever algo maior, é verdade, mas é uma pulsão semi-disciplinada. Mesmo assim, não um meio termo certamente.



O famigerado: https://www.youtube.com/watch?v=1lTcgSzf0AQ



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