Neverland não não também não

quinta-feira, 4 de agosto de 2016

15 de dezembro de 2015.



 
 Tiro os sapatos e coloco-os perto da porta. Jogo-me no sofá velho de frente para a janela. Ao me desmontar, sinto-me uma marionete posta de lado. Temporariamente largada, mas os fios continuavam ali, afinal. Alguns tem televisão. Eu tenho a janela. A vista não é bonita. É horrendo ter uma vida mais ou menos numa cidade cinza. Desejei poder ver uma árvore morta que seja. Ainda que estivesse morta, era um resquício de vida em algum ponto da linha do tempo. Nem isso eu tinha.
  Eu sentia um cansaço físico e emocional tão grande que poderia esculpir a mágoa objetificada. Não deveria ser, tampouco, algo belo. Talvez por isso eu tivesse a capacidade de fazê-lo.
  Olho para o celular. Não resta quase nada de mim, eu poderia acabar com meu orgulho também. Disco o número.
  - Oi. - ele atende.
  - Oi. Onde você está? - pergunto com a voz fraca.
  - Em um lugar onde eu não queria estar. Você não está aqui. - sua resposta poderia resumir todos os meus últimos dias.
  - Por que você não vem me encontrar? - tive um raio de esperança.
  - Estou fazendo algo pela gente...
  - Estaria fazendo algo pela gente se estivéssemos juntos.
  - Você tem que confiar em mim. - Hugo suspirou.
  - É só que... Estou tão cansada de requentar esse relacionamento. - esperei que ele reagisse, mas minha expectativa foi vã. Resolvo mudar de assunto. - Você está bem?
  - Estou. - não perguntou se eu estava bem. Talvez soubesse: fundo do poço.
  - Então...
  - Me responde uma coisa, Ana. - interrompeu-me.
  - Claro. - meus olhos estão arregalados, encaram as figuras mal coladas na parede, como se esperassem que Hugo as atravessasse a qualquer momento.
  - Você é minha?
  Era como se eu tivesse perdido a noção de tempo e espaço. Eu não podia me ajudar, apenas ele podia. A resposta era uma das poucas coisas claras em minha vida.
  - Sou sua.
 

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