Neverland pensei_falei@hotmail.com - -

Mostrando postagens com marcador Textos. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Textos. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, 29 de julho de 2019

Me diga como ser artista, mas nem tanto...


  Ontem assisti um vídeo que começava com um poema de Bukowski que dizia basicamente para não fazer nada que não te tire do eixo, que não te seja uma pulsão tremenda. Nunca li nada do velho - com todo respeito, é sabido que este é seu título - além de poemas deprimentes muito típicos de jovens adultos. Mas esse poema que vos falo me encheu os olhos.

  Para minha surpresa o video continuou no sentido de falar que nada disso era verdade, que era preciso disciplina muito mais do que pulsões. Ora, sou eu a dizer isso a mim mesma e a todos os outros a vida inteira, mas quando o narrador me disse aquilo, senti-me ofendida. Isso não faz a arte parecer um produto?

  Talvez haja um meio termo, algo entre o vício e a virtude. Mas é preciso um tato pra reconhecê-lo que desconheço um artista que possua. Um artista tem todos os sentidos expandidos a ponto de êxtase, mas talvez tato seja o menos aflorado deles como uma medida compensatória.

  O narrador continua seu trabalho alegando que o artista que não faz arte é um alguém quase enlouquecido que supre suas necessidades por viver seus próprios dramas. Não seria isso viver artisticamente? Pelo menos até seu próprio drama arruinar sua vida. Talvez eu não estea vivendo meus dramas e minhas artes direito. Ou talvez esteja e só perceba com o passar dos anos.

  O fato é que entre muita reflexão com um vídeo de 10 minutos que me mandava escrever, estou eu aqui escrevendo mesmo sem saber se concordo ou discordo. Uma procrastinação sincera de escrever algo maior, é verdade, mas é uma pulsão semi-disciplinada. Mesmo assim, não um meio termo certamente.



O famigerado: https://www.youtube.com/watch?v=1lTcgSzf0AQ



domingo, 10 de fevereiro de 2019

Cindy Macey

Untitled Film Still #21
(American, born 1954)
Cindy Sherman
1978. Gelatin silver print, 7 1/2 x 9 1/2" (19.1 x 24.1 cm)


Ela estava na hora do almoço no primeiro dia de trabalho. Não tinha sido como ela imaginava e todo o encantamento para com a cidade começava a se dissolver. Sua família havia lhe avisado que tudo era diferente, e o tratamento que recebera não havia sido dos melhores até então, mas não poidia simplesmente voltar atrás. Muiuto ainda iria acon tecer, coisas boas esperava, para poder retornar para casa e ajudar a todos. Mostrar que estava certa, não como algo egoico, não era de sua natureza, mas como apresentando uma nova possibilidade. Era preciso continuar, voltar para a bancada e recepcionar com o sorriso que a destacara como funcionária. A maquiagem não er auma metáfora, talvez acreditasse em si mesma se sorrise mais. Ela era mais que uma secretária, era Cindy Macey. Era doce e branda, e amada por toda a infância, coma  juventude não poderia ser diferente. Crescera com vida simples e rural e conhecia pouco do que estava fora de sua circusncrição. Mas estava aberta ao novo, e o convite de não apenas conhecer como trabalhar na cidade poderia ser uma porta de entrada para uma nova realidade. Talvez uma melhor que a sua. Era uma moça flexível, e coisas boas vinham para pessoas boas.

Obs: Este texto é resultado de uma proposta do MoMA através de um curso do Coursera sobre ver além da fotografia.

sábado, 9 de fevereiro de 2019

Subway Portrait

Subway PortraitWalker Evans
(American, 1903–1975)
1941. Gelatin silver print, 6 15/16 x 7 1/2" (17.6 x 19.1 cm)

Às vezes, se deseja tanto um tipo de vida que não se compreende o que ela representa. A vda era boa, não se engane, mas havia sempre algo a se esperar. Quando seu interior esperava algo bom, era um momento a ser registrado, mas quando se tornava uma ânsia receosa do que estav apor vir, o isolamento viria a ocultar essa face mental. Era uma manhã, mas as luzes já estavam acesas a diminuir as pupilas e despertar a força os que se ocultavam na estação de metrô para revelarem-se ao mundo do dinheiro. Era preciso, e não era uma coisa ruim. Dinheiro é bom, trabalho é digno.Assim como quem ia, ele também voltaria. E tinha para quem voltar, pelo que era de uma gratidão imensa. Ou ao menos deveria ser. Indo ao trabalho, saindo do subúrbio para a cidade. Sentar e vender. Talvez girar um pouco na cadeira pra inconscientemente despertar a criança dentro de si, sentir-se melhor consigo mesmo.É que o mundo era maior que sua sala e companheiros de trabalho. Era maior até que seu casamento, sua esposa.Ele a amava, e ela também, mas havia estações de distância entre eles e possibilidades demais que não viveram pelo conforto que não encontravam de jeito algum. As luzes do subterrâneo nunca serão as luzes do mundo.


Obs: Este texto é resultado de uma proposta do MoMA através de um curso do Coursera sobre ver além da fotografia.

sexta-feira, 22 de junho de 2018

Amor Incondicional: Amando pelo Presente da Existência


 Pode até ser que muito se ouça sobre "amor incondicional" mas o fato é que a primeira vez de ter me dado conta conscientemente sobre essa expressão, algo mudou dentro de mim. Parecia algo digno de transcendência, uma finalidade de vida.
  Como a própria expressão torna clara, o amor incondicional é aquele que não depende de nada além da existencia daquele que ama e daquele que é amado, sem condições. Um exemplo simples para compreender isso é o amor que se dedica a um recém nascido, esse ser que existe e nada pode oferecer ainda, apenas demandar. Ou seja, não há interesses ou decepções que intervenham no sentimento.
  Ainda que se associe mais comumente ao amor materno por exemplo, também não é incomum que seja associado à idealização do amor romântico. No entanto, o amor incondicional deveria estar associado a todos, a tudo, e também se manifesta no mundo real a partir do momento em que se disponha para tal.
  Parece uma utopia aplica-lo numa realidade como a nossa, não é? Mas é sabido o poder de contagiar que nossas ações possuem, a atração de nossos pensamentos. Além disso, amar é simples, acontece muitas vezes - se não em todas - independente da nossa vontade; o que complica são os relacionamentos. Porém, uma vez que se tenha em mente o desejo de ver o amor incondicional em pratica, nossas decisões e posturas em relação aos outros muda.
  Com isso não quero dizer que você irá "amolecer", mas que haverá mais consciência, mais brandura nas suas posturas em relação a quem ama. Quero dizer que você estará presente o suficiente para amar o ser independente do passado ou do futuro.



Textos Parecidos:


sexta-feira, 27 de abril de 2018

Vulnerabilidade: Uma Questão de Ser

Eu parto da ideia de que não "estamos" vulneráveis: Somos vulneraveis. A mortalidade nos fez assim no principio, e a as exigências sociais e individuais nos fazem assim agora. A proporção e a forma é diferente, mas a determinância disso na nossa vida é inegável. Não é a toa que discutimos isso desde a Grécia Antiga, e, mesmo, tomamos decisões duvidosas para sermos menos vulneráveis, como a própria concepção de escravidão para esse povo que se pauta em vencer as necessidades do corpo vulneravel através do trabalho do outro. Mas hoje, felizmente, as concepções mudaram, ainda que isso não queira dizer que deixamos de temer as nossas fragilidades.
  Não gostamos de expôr nossas fraquezas, embora mostremos todo o resto, assim como não queremos ver (ou mesmo acreditar) nas dos que nos inspiram justamente por parecerem fortes demais para tal. Mas a verdade é que o que nos faz humanos resistentes (e resilientes, qualidade tão em alta) e com visão de progresso é justamente o reconhecimento das nossas vulnerabilidades no intuito de melhorá-lo até onde é possível. Isso não quer dizer que tenhamos que mostrá-las para todos o tempo todo - ainda mais pra aqueles que não tem um mínimo interesse de ajudar, muito pelo contrário -, mas que negar-se e frustrar-se não é uma saída interessante, nao é se quer uma saída.
  Acredito que o momento em que mais fui vulneravel foi quando meu atual namorado tentou me mostrar todas as possibilidades que nós teríamos quando eu estava em um momento de profundo pessimismo, baixa auto estima e negação. Então, logo de cara, expus todas as minhas fraquezas, não fiz-me vulnerável, mostrei-me vulnerável. E tudo isso com a intenção de que ele apenas desistisse, sendo que o contrário ocorreu, eu fui acolhida e senti que não tinha nada de errado em ser vulnerável, em ser completamente quem sou em todas as minhas faces.
  Com isso, não quis dizer que você deva sair dizendo suas falhas esperando consolos, mas que você pode ser inteiro uma vez que se reconheca por completo. Uma vez que busque se tornar a pessoa que deseja ser.
  Quer mais alguma fonte para refletir a respeito? Então não deixe de conferir a live do canal Poder da Gravata que me inspirou a escrever esse texto.
  Aliás, se alguma história em que sentiu sua vulnerabilidade enquanto algo positivo lhe passou pela mente enquanto lia, não esqueça de deixar nos comentários para que a gente possa conversar um pouco sobre esse assunto tão amplo!

terça-feira, 14 de março de 2017

16 de julho de 2016.



  Eu tinha acabado de voltar de uma viagem de quatro dias pro Rio com Carina e estava exausta. Fomos a uns dois luais, aonde soltaram fogos por motivo nenhum, mas que trouxeram uma animação que eu desconhecia. Íamos a festas cheias de luzes e dançávamos como se as noites do mundo fossem acabar. Conhecemos pessoas com uma facilidade que nunca antes eu imaginei que teria. Acho que grande parte da responsabilidade disso foi dos cariocas que são muito receptivos, mas quero crer que também estou mais aberta com as pessoas.
  Já estávamos em cartaz há quase seis meses quando a companhia optou por essa pausa. Voltamos a nos apresentar ainda no final dessa semana, no entanto. De qualquer forma, essa viagem me deu uma energia e tanto.
  Chego em nosso apartamento já jogando as malas no canto, arrumo depois. No momento, o que preciso mesmo é pintar. Como eu não tinha descoberto essa minha afinidade com esse tipo de arte antes é algo que não sei responder. Digo, o teatro é tudo que sempre quis, mas há algo de instantâneo e presencial nele que torna qualquer filmagem uma experiência vã perto do espetáculo em si. Mas a pintura não. Ela consegue conter em si toda a arte que quero que sobreviva mesmo a mim por tempo indefinido.
  Começo desenhando uma menina sobre uma árvore. Ela estava fugindo. Fugindo de todo o barulho da cidade. Mas quando ela vê o oceano, ela escuta o mesmo burburinho e percebe então que o som incômodo vinha dela mesma. Talvez ela cresça sem conseguir mudar isso e continue pequena e amedrontada dentro de si. Mas acho que não. Eu quero acreditar seriamente que ela irá mudar as coisas que pareciam imutáveis e vai crescer em paz. Sem permitir-se ser cerceada nunca mais.

segunda-feira, 13 de março de 2017

13 de fevereiro de 2017.





  Carina precisava de um apartamento novo. Ela estava tendo uns problemas com a síndica e se tinha uma coisa que não gostava era de se irritar. Ofereci-me para ser sua companheira de quarto em um  local um pouquinho maior. Como eu poderia imaginar que em menos de dois meses eu entraria em um grupo de teatro - mesmo ouvindo de meus pais por todo o tempo que eu fazia curso quando era mais nova que aquilo seria inútil pra mim -, terminaria com Hugo e ainda me mudaria com uma amiga. Acho que das muitas coisas que tive que aprender na "surra" com Hugo, sair da zona de conforto foi a melhor delas.
  Chegando em meu novo quarto com a última caixa de papelão da mudança. Os móveis já estavam montados e ainda que eles não fossem muito bons, eu pagaria por eles por um bom ano. Pendurei um espelho com moldura branca na parede. Talvez dessa vez fosse preferível colocar mais molduras do que pôsteres para não estragar a pintura...
  Recolhi meus poucos livros e coloquei-os na prateleira. Deixei cair então um caderno antigo. Sorrio ao ver sua capa com um sapato na capa. Eu devia ter uns treze anos e me sentir muito adulta quando o escrevi. Quando fui pegá-lo do chão, reparo em uma foto que tinha caído de seu interior. Eu mais três amigos do ensino fundamental. Ainda lembraria o nome deles? Gabrielle, Nina e... Qual era o nome do menino? Era tão estranho que eu não lembrasse. Quero dizer, ele era meu melhor amigo e foi meu "primeiro amor". Na época eu me sentia tão sortuda por isso... Mas acabou que ele não sentia o mesmo por mim e acabou se afastando de um jeito que me deixou arrasada na época. Eu disse que nunca o esqueceria, mas agora eu não lembrava nem seu nome. Isso deveria me fazer sentir uma pessoa sem palavra, mas, além da nostalgia, havia um quê de esperança naquilo. Quantos outros eu já não havia esquecido? Talvez um dia eu achasse meia dúzia de palavras sobre Hugo e me pergunte... Por que fiquei tão mal por ele? O tempo tem o dom de assentar as grandes agitações.

domingo, 15 de janeiro de 2017

15 de janeiro de 2016.

zzzze:
“Marina Abramovic, Art must be Beautiful, Art must be Beautiful, 1975
”



  O quarto de Carina era cheio de cores. Uma pelúcia em cima da cama, livros organizados por tom, arara com roupas claras e sapatos escuros, velas verdes e lilases distribuídas pelo peitoril da janela. Apago as luzes. No fim das contas, as cores tanto fazem aos olhos de quem está configurado para ver tudo em preto e branco.
  Carina além de me acolher, ainda tratava da minha cabeça. Dizia que era questão de tempo. Eu não dizia a ela, mas sabia que era uma questão de cores. Às vezes, tudo o que a gente precisa é olhar pro céu e esperar até que ele fique da cor do nosso sentir.
  Eu ainda tinha minhas dúvidas se conseguiria deixar tudo de lado. Ainda era difícil dizer não. Difícil como usar vírgulas quando o coração lhe rasga o peito. É difícil deixar alguém ir quando se anda com a mão pendendo por companhia.
 

sexta-feira, 28 de outubro de 2016

13 de janeiro de 2016.

trefoiled:
“  Spencer Isitt
”


 
  Era uma tarde de quarta-feira. Havia saído mais cedo do teatro, já na intenção de passar no apartamento e fazer as malas. Ao conversar com Carina e Matheus e me expor como nunca antes, percebi que, de fato, eu não podia mais continuar vivendo daquele jeito. É estranho como às vezes a gente se convence com a opinião de novos conhecidos e ignora a de velhos amigos e a de nós mesmos. A gente tem essa falsa impressão de que uma possível imparcialidade é mais sábia.
  Com a chave na porta do apartamento que eu conhecia há menos de um mês, eu confesso que sentia algum tipo de esperança. Abri a porta e, para minha surpresa, a televisão estava ligada e exibia um show de uma banda de rock. Ele estava em casa. Ao ouvir o barulho da porta, Hugo apareceu vindo da cozinha.
  - Ana? Pra onde você foi?
  Não tinha a intenção de responder, mas antes que eu reagisse, a mãe de Hugo aparecera.
  - Sara. - assenti com a cabeça, em um cumprimento forçado. Ela não gostava de mim e isso me obrigava a evitar o máximo de contato com ela.
  - Ela não dormiu aqui hoje? - perguntou para o filho como se eu não estivesse lá. - Eu sabia que um dia essa garota podia aparecer grávida, mas se não for filho seu, aí já é demais.
  Eu estava cansada demais para me calar dessa vez.
  - A senhora não se preocupa não, dona Sara, que hoje mesmo eu vou embora. Vê se arruma uma mulher melhor pra ele.
  Fui até o quarto e tranquei a porta.
  - É o melhor que você faz pra ele, minha filha. E quem sabe faz até um bem pra você também. Vê se encontra um rumo pra essa sua vida! - meu coração já estava partido e a cada palavra que proferiam meu sofrimento aumentava.
  Peguei a mala velha de pano que eu usara para a mudança anterior e joguei meus pertences essenciais. Eu não tinha muita coisa pra chamar de minha, mas havia enchido a bolsa.
  Eu ouvia Hugo discutir com a mãe do lado de fora, mas eu me esforçava para ignorá-los e focar apenas em meu trabalho. Ouço um barulho da porta e deduzo que ela havia ido embora.
  - Ana, você não pode ir embora! - ele bate na porta, mas não repondo.
 Deixava algumas coisas para trás, mas eu não me importava de nunca mais voltar a vê-las. Não pretendia voltar, era um caminho sem volta.
  Abro a porta e sem olhar para ele atravesso a sala. Eu tinha medo do que podia acontecer, mas não podia permanecer acorrentada. Ele mesmo havia dado a deixa para as mudanças, agora tinha que lidar com as consequências.
  - Você sabe muito bem porque estou indo. Por favor, Não me procure mais.
  Ele segurou meu pulso, mas com um puxão, soltei-me e praticamente corri para fora do local. Andares abaixo, porta de prédio agora. Lá fora estava frio, mas o céu estava claro. A luz que entrava em meus olhos não me cegava, ela parecia deixar claro tudo o que mudaria. Minha vida estava pela metade, mas quando ela se completasse novamente, ela não dependeria de mais ninguém além de mim.

terça-feira, 25 de outubro de 2016

12 de janeiro de 2016.


Um lápis e uma folha de papel.
Mais uma tentativa.
Sinto os dias como sobreposições.
Esforço-me para ver a vida em tons de rosa,
Mas tudo se intensifica e se torna vermelho.
Sou o chão riscado por onde pisa.
As notas do piano são gentis,
Mas as cordas do violino me envolvem como um laço suicida.
Visto luto.

terça-feira, 18 de outubro de 2016

11 de janeiro de 2016.

ohgigue:
“ #wip for upcoming short story
”



  Não havia porque me buscar em uma segunda-feira, mas ele havia prometido e aquilo me dava um tipo de faísca no coração. "Vou passar aí perto de qualquer jeito, não custa nada eu te encontrar." Hugo havia argumentado.
  Eu me despedira de Matheus e Carina, que sempre peavam o mesmo ônibus que eu para ir para casa e ficara na recepção da cia de teatro esperando. A secretária terminava de arrumar suas coisas para ir para casa. O pequeno relógio na parede avisava: dezenove horas e vinte.
  Uma fumaça aromática saía do incenso na mesa. Meu olhar passeava pelos cantos da pequena sala: uma planta provavelmente falsa de um lado, um pôster em preto e branco do outro. A televisão transmitia o making off de algum filme de décadas passadas que eu não conseguia reconhecer, mas havia algo que chamaria minha atenção em um momento em que eu não estivesse tão inquieta. Dezenove e quarenta.
  Eu tinha avisado que sairia às dezenove horas. Será que ele havia esquecido? Ou, quem sabe, um contratempo? Pego meu celular e lhe envio uma mensagem. "Estou te esperando :)". Abro sua foto enquanto espero a resposta. Hugo está de perfil como se não quisesse realmente tirar a foto. Havia algum tempo desde que ele tirara uma foto sorrindo. Ele ainda não respondeu. Guardo o celular e aguardo seu vibrar. Vinte horas.
  - Ei, Ana. - a secretária coloca a mão no meu ombro chamando minha atenção. - Eu tenho que ir embora, mas se você quiser eu deixo a chave com você pra você fechar aqui. Só que aí você vai ter que chegar mais cedo que eu amanhã. - ela sorria, mas havia pena em seus trejeitos.
  - Não, tudo bem. Ele já está chegando, espero na escadinha ali fora mesmo.
  Ajudo-a desligando e terminando de fechar as coisas e me despeço dela. Ponho-me sentada no primeiro degrau. Está escuro e meu estômago revira um pouco de nervoso. Eu não queria estar ali. Pego o celular novamente e ligo para ele quase umas dez vezes. Ele não atende.
  Vinte horas e trinta e uma silhueta aparece na rua deserta. Hugo. Levanto e caminho em direção até ele, mas ele não me espera. Sem me olhar, vocifera:
  - Você disse nove horas! Nove horas! Está desde sete horas enchendo meu saco! Eu estava em aula, porra!
  - Não, eu disse sete horas... Você que não me ouviu...
  - Ainda vai dar uma de mentirosa agora? - ele se virou brevemente, seu rosto cheio de raiva. Perguntava-me se a culpa disso era realmente minha.
  - Como eu poderia chegar em casa todo dia às oito se saio às nove? - sinto meus olhos se encherem de lágrimas, mas não deixo minha voz transparecer o choro vindouro. - E sua aula não termina às seis?
  Ele não responde, parece pensar. Está muito à minha frente. Acelero o passo, quase correndo. Sinto então o cheiro de cerveja em suas roupas. Não estava bêbado, mas certamente eu havia interrompido uma noite no bar.
  - Depende do dia. - ele mentia.
  - Se não queria me buscar, não falasse que vinha. - paramos no ponto de ônibus.
  - Então vai pra casa sozinha. - e voltou a andar.
  - Hugo! - chamo. Não acredito que ele estava fazendo aquilo. - Hugo!
  Ele nem ao menos olha para trás... Assisto-o desaparecer rua abaixo, sentindo-me profundamente humilhada e magoada. Não queria voltar para casa e dar de cara com ele no dia seguinte ou em qualquer hora da madrugada que fosse. Chorando como uma criança, ligo para Carina:
  - Oi, Ana. Que foi? - ela atende.
  - Ah, eu queria saber... se podia dormir na sua casa hoje.
  - Claro, mas... Que voz é essa? Aconteceu alguma coisa?
  - O de sempre...

segunda-feira, 10 de outubro de 2016

8 de janeiro de 2016.




  Minha primeira semana na companhia de teatro local havia sido fantástica. Eu havia feito o teste no final do ano passado e logo no início da semana recebera a ligação dizendo que eu havia sido aceita. Eu mal conseguia acreditar no tamanho de minha sorte, já que toda minha experiência teatral se resumia a oficinas de poucos dias que havia feito quando era mais nova e ainda morava com meus pais e a tradição de ir ao teatro ao menos uma vez por ano.
  Os ensaios em si não tinham começado ainda. Nossas reuniões diárias se resumiam a testar o realismo das falas, discutir posições de palco, possibilidades de figurino e cenário. Não era uma superprodução e meu salário era quase similar ao que eu recebia na cafeteria, um pouco menor, na verdade. Mas existia a possibilidade dele subir dependendo da aceitação do público.
  A antiga construção pintada de branco e com as janelas coloridas havia me cativado em pouco tempo, juntamente com o resto da equipe fácil de socializar, até mesmo para mim. Eu não lembrava da última vez que simplesmente aceitava sair do trabalho com um grupo grande de amigos pra comer uma besteira em um barzinho arrumadinho e conversar algo sem relevância enquanto ouvíamos música. Pela primeira vez em anos eu conseguia apreciar a companhia de um grupo, conversar sem me sentir pressionada, e até mesmo, ouvir o som da minha própria risada.
  Parecia que algo estava florescendo novamente dentro de mim... Tantos anos de retração sendo colocados para fora. Eu me sentia viva novamente.

quarta-feira, 5 de outubro de 2016

2 de janeiro de 2016.




  O alarme me desperta. Dessa vez, o barulho até parece tranquilo. Eu havia esquecido de desliga-lo. Não preciso mais dele, não tenho porque acordar cedo. Mas me sinto estranhamente feliz por estar acordada. Olho para o teto branco e vejo o ventilador parado. A noite havia sido fresca e eu havia dormido  bem.
  Desligo o despertador e me sento, espreguiçando-me sob os lençóis brancos. Havia música ressoando pela casa. Vou direto para o chuveiro e ao som daquela música boa tomo meu banho.
  Depois do ano novo, que não havia sido isso tudo, todos foram embora da casa de praia. Finalmente, éramos só nós dois.
  Saio do banheiro ainda enrolada na toalha e vejo Hugo cantando e balançando a cabeça, a liberdade de quem não sabe que está sendo observado. Quando ele se vira e dá de cara comigo, sorri desconcertado e me puxa pela mão, levando-me a dançar com ele. Ele me rodopiava pela sala um tanto fora do ritmo da música, mas de um jeito que me divertia muito. Eu ria e sentia meu coração acelerar, talvez pela agitação física ou emocional. Talvez pelos dois.
  Quando a música terminou, Hugo se jogou no sofá e me levou junto. Logo, outra música começou, mas nosso foco havia mudado.  Eu ficava assim observando os detalhes de seu rosto e ele os meus. Ele pôs um beijo no meu rosto e eu vi ali o melhor do dia que eu tivera em anos. Era como se tudo estivesse começando novamente, como se eu estivesse me apaixonando pela primeira vez.

segunda-feira, 3 de outubro de 2016

29 de dezembro de 2015.




  Hugo havia proposto que viajássemos para a casa de praia da família por parte de pai dele para passarmos o final do ano com mais tranquilidade. No entanto, eu tinha o pressentimento que poderia não ser tão calmo assim, ainda mais sabendo que não seríamos só nós dois. Seríamos nós dois, o primo dele e sua namorada somados aos amigos em comum.
  No total éramos oito em uma casa não tão grande assim. Isso me deixava desconfortável, mas pior que isso era apenas a presença de Alexa. Mesmo quando não saía, fazia questão de se manter perfeitamente arrumada. Delineador, batom vermelho, cabelo escuro perfeitamente alisado e recém cortado. Eu odiava o jeito como sorria para Hugo. Eu odiava o jeito como sorria. Sempre que conversava com seu outros amigos, ela mantinha o rabo de olho em Hugo. Algo se inquietava em mim imaginando se ele não estaria minimamente interessado. A mim, ela não dirigia a palavra, muito mal o olhar. Como se eu não estivesse ali.
  Estava frio, mas decidiram ir à praia caminhar na areia. Eu não estava minimamente interessada em ir, mas não queria parecer ainda mais deslocada do que estava. Alexa usava uma jaqueta jeans que Hugo elogiara e os dois iam conversando na frente do grupo. Eu andava atrás de todos. Resolvi caminhar ainda mais devagar para checar se sentiriam minha falta. Não sentiram.
  O ciúmes se misturava com a solidão. Talvez o mais sábio a se fazer fosse deixa-lo ir com ela. Na verdade, por mais que tudo estivesse bem, parecia que ultimamente eu tentava enxergar qualquer motivo que me afastasse de Hugo. Qualquer motivo para acabar com o tipo de vida que eu tenho.
  Parei e vi-os ir para cada vez mais longe. Suspirei e sentei-me na areia esbranquiçada. Olhei o oceano ao longe enquanto o vento ricocheteava meus cabelos mal presos. O mar estava bravio e o som invadia meus ouvidos como uma repreensão da vida. Era algo bonito de se ver e doloroso de sentir.

domingo, 25 de setembro de 2016

28 de dezembro de 2015.

  É reconfortante a sensação de livrar-se de algo. Eu finalmente havia tomado a coragem que precisava para pedir demissão no café. Por mais que eu fosse sentir falta de Eduarda e que mudanças desse porte fosse algo brusco, um peso havia saído de minhas costas.
  Decido comemorar passeando por ali. Esperava não voltar ali tão cedo. Minha imagem refletia nas vitrines: uma mulher magra vestida de preto com uma satisfação no rosto que não conhecia há muito tempo. Uma satisfação tão evidente que me surpreendia, eu já havia esquecido como eram minhas expressões faciais em meio ao vazio diário.
  Quando me dou conta, a lua já está no céu. Sentia como se eu tivesse enterrado uma parte de meus problemas sob sua poeira. Eu sabia que ainda havia mais a se enterrar, mas talvez eu não quisesse... Talvez eu não soubesse qual era o outro problema. Ou negasse até o fim.
  Em uma conversa dessas com Eduarda ela deu a entender que talvez eu estivesse vivendo muito em razão de Hugo. Alterei-me, disse que não, que nunca mais voltasse naquele assunto. De fato, não mais voltamos a ele, mas era algo que passava por minha cabeça às vezes.
  Talvez, eu devesse simplesmente construir uma casa na lua, próxima aos meus problemas. Saber conviver seria uma virtude, não seria? A quem estou perguntando, afinal? Não há ninguém para responder.
   A verdade é que minha vida está empoeirada demais, e, infelizmente, não é poeira lunar. A verdade é que estou fazendo meu máximo para tentar limpá-la, e, por mais que eu tente negar, percebo finalmente que empurrar a sujeira para baixo do tapete não é a solução.

sábado, 17 de setembro de 2016

24 de dezembro de 2015.



 
  Sentada no sofá, o único móvel novo que eles conseguiram comprar, Ana passeava o dedos sobre o controle remoto de sua antiga tv. Sem disposição para liga-la, no entanto. Reparou que a lâmpada precisava ser trocada, no entanto, a luz dos postes da rua invadia a sala pela janela. Já havia assistido o pôr do sol, avisado para seus pais que assim que desse aparecia na casa deles e cozinhado até que de boa vontade alguns petiscos para quando Hugo voltasse.
  Ela não tinha grandes expectativas para o Natal desde que se lembrava. Ele muito menos, era ateu. Ainda assim, Ana acredita em Algo Maior. Só não sabia explicar. E, de alguma forma, aquele Natal era diferente. Era o primeiro que passariam juntos em seu novo apartamento.
  Vinte e três horas e quarenta e cinco minutos. Hugo havia ido resolver alguns problemas da loja de discos com o primo. Ele sairia da sociedade para correr atrás de uma antiga vontade: o curso de gastronomia. Isso havia feito o corpo dela se revirar com algo que há muito desconhecia: o desejo de uma mudança real para si. Talvez devesse seguir os passos dele e sair daquela cafeteria.
  Olhou pela janela. Não havia ninguém na rua, a não ser uns poucos infelizes sem destino. Tudo parecia tão solitário lá fora. Ele não estava vindo. Não havia nada para ela olhar. Talvez ela devesse estar em outro lugar. Voltou para o sofá.
  Ana acendia e apagava o isqueiro que Hugo havia esquecido incessantemente. Imaginou se ele já teria dado falta do objeto. Provavelmente sim. Imaginou se ele já teria dado falta dela. Não estavam tão longe assim, mas o poder da data fazia-o parecer estar a quilômetros de distância.
  Meia noite. 25 de dezembro de 2015. Acendeu o isqueiro mais uma vez, sentiu o calor em seu rosto e fechou os olhos.
  "Deus... Ou qualquer força maior que eu... Por favor, olhe por nós. Faça-nos sentir abraçados ao menos uma vez na vida."
  Terminou sua prece silenciosa e soprou a chama, retirando o dedo que a acionava logo em seguida, simulando o apagar do fogo de uma vela. Colocou o objeto azul no braço do sofá e correu os dedos para o celular.
"Já está chegando?" enviou a mensagem.
"Ocorreu um imprevisto. Vou dormir aqui na casa do meu primo. Quer vir pra cá?" respondeu cinco minutos depois. Ela pensou realmente em ir, mas não queria passar essa noite em outro lugar a não ser em sua própria casa.
"Não... Te vejo amanhã."
"Ok. Feliz Natal."
  Era um desejo vazio. Ele não se importava com aquela data. Ela fingia não se importar também, mas agora percebia que não adiantava negar isso para si mesma. Sentida, deitou-se no sofá e adormeceu.


sábado, 10 de setembro de 2016

16 de dezembro de 2015.

 



  Há anos atrás eu gostaria de ter visto o mundo e ter tido um pedaço dele. Gostaria de ter feito de tudo nas noites quentes de verão. Teria sido até ambiciosa em querer diamantes e viagens, mas agora tudo me parecia tão longínquo. Até mesmo as coisas que almejo agora me parecem distantes. Inclusive você.
  O café fica pronto e despejo o escuro líquido em minha xícara. O som que costumava ser relaxante agora me angustia profundamente. Observo-o cair e vejo tudo sem foco. Tão sem foco quanto minha vida.
  Ouço um barulho de chave. É ele. Coloco a cafeteira na pia e vou em direção à porta. Vejo Hugo retirando um pôster vermelho de um filme que gostávamos da parede. Queria perguntar o que estava fazendo, mas, ao mesmo tempo, me bastava observar. Ele se virou e sorriu, tranquilo.
  - Tenho algo para nós dois. - ergueu um pano escuro que devia ser um pedaço de blusa velha. - Mas preciso que seja surpresa.
  Eu queria um beijo, um abraço, um "estava com saudades", mas estava tudo bem assim também. Ao menos eu tentava me convencer disso.
  - O que você está arrumando?
  - Já não disse que é surpresa? - repreendeu-me.
  - Tudo bem.
  Calo-me e ele me conduz para fora do apartamento, tranca-o, e me guia escada abaixo. Entramos num carro, um táxi, deduzo quando ele passa o endereço. Não é uma rua que eu conheça, mas as referências são lugares que ele gostava muito de ir. Eu gostava também.
  Hugo cantarola o ritmo de uma de suas músicas favoritas. Eu não gostava dessa. Momentos depois, desço do carro e ele orienta até um lugar que eu identifico como elevador assim que sinto a peculiar sensação nas panturrilhas e estômago. Subindo.
  Paramos algumas vezes antes de sairmos. Barulho de chaves, uma porta se abre, a venda é retirada. Um espaço branco e mediano se mostra à minha frente. O cômodo principal correspondia ao tamanho da minha sala e quarto juntos. As paredes brancas pediam uma nova pintura, mas havia algo de aconchegante nelas. Havia apenas uma vassoura vermelha no lugar.
  - O que é isso?
  - Nosso espaço. Dessa vez a gente vai dividir tudo. - ele entrou e com fita adesiva colou o pôster em uma das paredes. - E arrumar tudo.
  Olho para aquele lugar e nos vejo arrastando móveis para lá e para cá, apagando e acendendo as luzes ao dormir e acordar. Havia algo de elétrico e belo em seu olhar e eu o amei ainda mais.  Perguntei-me então se você um dia deixaria de me amar. Talvez quando eu não fosse mais jovem ou bonita como costumava me dizer... Senti meus olhos encherem de lágrimas. Abracei-o, beijei-o e disse:
  - Senti saudades. - suspirei. - Obrigada.
  Ele posicionou uma mecha de cabelo atrás da minha orelha e me olhou ternamente. Soube então a resposta para minha pergunta. Eu sabia que sim.

quinta-feira, 4 de agosto de 2016

15 de dezembro de 2015.



 
 Tiro os sapatos e coloco-os perto da porta. Jogo-me no sofá velho de frente para a janela. Ao me desmontar, sinto-me uma marionete posta de lado. Temporariamente largada, mas os fios continuavam ali, afinal. Alguns tem televisão. Eu tenho a janela. A vista não é bonita. É horrendo ter uma vida mais ou menos numa cidade cinza. Desejei poder ver uma árvore morta que seja. Ainda que estivesse morta, era um resquício de vida em algum ponto da linha do tempo. Nem isso eu tinha.
  Eu sentia um cansaço físico e emocional tão grande que poderia esculpir a mágoa objetificada. Não deveria ser, tampouco, algo belo. Talvez por isso eu tivesse a capacidade de fazê-lo.
  Olho para o celular. Não resta quase nada de mim, eu poderia acabar com meu orgulho também. Disco o número.
  - Oi. - ele atende.
  - Oi. Onde você está? - pergunto com a voz fraca.
  - Em um lugar onde eu não queria estar. Você não está aqui. - sua resposta poderia resumir todos os meus últimos dias.
  - Por que você não vem me encontrar? - tive um raio de esperança.
  - Estou fazendo algo pela gente...
  - Estaria fazendo algo pela gente se estivéssemos juntos.
  - Você tem que confiar em mim. - Hugo suspirou.
  - É só que... Estou tão cansada de requentar esse relacionamento. - esperei que ele reagisse, mas minha expectativa foi vã. Resolvo mudar de assunto. - Você está bem?
  - Estou. - não perguntou se eu estava bem. Talvez soubesse: fundo do poço.
  - Então...
  - Me responde uma coisa, Ana. - interrompeu-me.
  - Claro. - meus olhos estão arregalados, encaram as figuras mal coladas na parede, como se esperassem que Hugo as atravessasse a qualquer momento.
  - Você é minha?
  Era como se eu tivesse perdido a noção de tempo e espaço. Eu não podia me ajudar, apenas ele podia. A resposta era uma das poucas coisas claras em minha vida.
  - Sou sua.
 

quarta-feira, 3 de agosto de 2016

13 de dezembro de 2015.



 
  Dez horas e trinta e quatro minutos de um domingo. Viro-me na cama, despertando. De certa forma, eu me sentia mais leve. Levanto-me e tomo uma ducha. A água gelada lava meus cabelos e as gotas acarinham meu corpo, fazendo-me arrepiar.
  O dia parecia ter mais cor que o normal e, de certa forma, eu sentia que as coisas estavam mais organizadas em minha cabeça. Ainda assim, tenho a impressão de que devo organizar-me ainda mais, para que eu não me desorientasse novamente tão cedo.
  Mais uma vez, pego o caderno e a caneta. Posiciono também meu velho notebook em cima da mesa. Jogo na pesquisa algo como "inspiração para escrever" e acabo indo parar em um sote de layout estranho chamado "Season of Love" que disponibilizava uma série de perguntas que supostamente despertariam minha vontade de escrever. Perguntas sobre o significado do meu nome, dissertações sobre minha família e minha condição financeira. Talvez fossem boas técnicas para alguém, não para mim. Pressionar-me a pensar e escrever sobre esses temas me incomodava mais do que ajudava.
  Desço a página rapidamente, com os olhos procurando um item que realmente me trouxesse interesse. Chego ao último: O que você quer saber? Era uma pergunta muito vaga. As possibilidades eram imensas. Tiro a tampa da caneta e abro o caderno aleatoriamente. Havia certa fúria em meus gestos, como se eu eu tivesse medo de deixar a inspiração ir embora. Era isso.
 
" Eu quero saber quando isso vai acabar. Esse medo de deixar qualquer sentimento ir embora, ainda que a inspiração não possa ser considerada um sentir. Ainda que ele não possa ser considerado um sentimento. De qualquer forma, esses elementos me provocam sensações que anteriormente eu desconhecia. Contraditoriamente, também tenho medo de me aprofundar mais e perceber que simplesmente nunca conseguirei obter o suficiente. Esse medo de variadas faces me aprisiona em um presente estagnado com colorações de passado e perspectivas de futuro vazio. Não há terras prometidas, raios solares. Não há esperança."

terça-feira, 2 de agosto de 2016

12 de dezembro de 2015.

 



  Olho para as folhas em branco daquele bloco de notas. A caneta rodopia em minha mão. Minha mente fervilha, mas não consigo colocar nada no papel. Talvez o conselho de escrever o que se passa em minha cabeça fosse muito bom, mas eu não conseguia nem mesmo retirar a tampa da caneta. Gostaria que ele pudesse ler minha mente. Poderia ser mais fácil.
  Largo o material de escrita na mesa e termino de me arrumar. Mais uma semana passara e ele não aparecia. Tinha coisas para resolver, ia ficar longe por um tempo. No meio da semana, para que a reclamação não fosse a mesma, enviara-me uma mensagem perguntando se estava tudo bem. Nenhum assunto surgiu por parte de nenhum de nós. Nada realmente relevante.
  Eu não saía em uma sexta-feira à noite há meses. Ia apenas por insistência de Eduarda. Mais uma de suas insistências de me tirar do que ela chamava de monomania. Talvez ela estivesse certa.
  Visto o vestido de manga neutro, porém bonita de se usar à noite, e coloco meu único par de saltos. Delineio os olhos e pego minhas coisas para sair. Tranco a porta e desço as escadas do prédio. É uma escadaria feia e eu acredito fielmente que ainda vou cair daqui se não me mudar em breve.
  O táxi que Eduarda tomara, me esperava. Ela está bonita e animada e tenta me contagiar. Infelizmente, não é tão simples assim.
  Chegamos ao lugar. Na parte da frente, era um bar com música ao vivo. Na parte de dentro, bem isolada, um tipo de boate mais particular. Eu preferiria ficar do lado de fora, mas Eduarda queria ir lá dentro dançar, e como eu havia prometido ir com ela, eu a acompanharia.
  Ela já chegara vibrando e me implorando para dançar o que chamava de "melhor música do mundo" com ela. Eu não concordava tanto assim, mas dancei esta e mais uma outra. Depois, deixei-a na pista de dança e andei em volta do local procurando algo que prendesse a minha atenção, o que não aconteceu. Fui para os bancos do bar, onde eu passaria o resto da noite.
  Aos poucos, fui pedindo drinks. Alguns caras me olhavam, mas eu desviava e me preocupava em não voltar a olhá-los. Infelizmente, para um deles, esses desvio de olhar permanente não foi o suficiente. Sentou-se ao meu lado.
  - Posso te pagar um drink? - perguntou esticando o braço para me abraçar os ombros. Afastei-me, impedindo seu gesto apressado.
  - Não.
  - Quer dançar essa música comigo, então? - ele ajeitou seu cabelo e passou as mãos em sua barba.
  - Sinceramente? Tem um monte de menina lá dançando, porque não acompanha uma delas?
  - Parece que você não quer estar aqui. - ele cruza os braços tatuados casualmente. Suas tatuagens me lembras as de Hugo. Desvio o olhar.
  - Talvez eu não queira.
  - Então por que não vamos para outro lugar?
  - Nunca. - não é preciso muito esforço para mostrar meu desinteresse. Ele parecia querer insistir, então simplesmente levanto e vou até o banheiro.
  As coisas parecem meio incertas, fora de foco. Talvez eu tenha tomado drinks demais. Não me sinto mais feliz, no entanto. O usual incômodo no peito volta acompanhado da vontade de chorar. Eu não conseguiria chorar de qualquer forma. Olho-me no espelho e para minha surpresa já havia lágrimas escorrendo em meus olhos. Ao menos para isso aquela noite servira. Finalmente eu havia conseguido chorar. Não na intensidade que guardava, mas ao menos um indício de libertação dessa angústia sem nome.
 Espero até as duas da manhã no banheiro, onde não poderia ser incomodada. Exceto pelo choros e ânsias de vômito de outras garotas. Nada muito permanente, elas sempre voltavam para a festa depois. Quando o horário chegou, saí do estranho casulo e aviso à Eduarda que pretendo ir embora.
  - Aonde você esteve? - seu olhar indica que ela não queria saber aonde mas com quem.
  - Com ninguém interessante.
  Ela tinha um sorriso bobo no rosto enquanto voltávamos, mas era coisa da cabeça dela. Ainda estou meio zonza quando chego em meu prédio. Subo alguns degraus e meu pé vira. Só não caio todo o ramo de escadas, pois me seguro contra a parede.
 Eu sabia que esse dia ia chegar. O susto faz meu emocional se agitar e o choro finalmente vem. Sento-me ali mesmo e coloco tudo para fora.  Eu sabia que a queda e o pranto viriam, só não sabia quando. No final, eles sempre vêm acompanhados um do outro.
 

Seguidores

Popular Posts

Quem sou eu

Minha foto
Escritora, professora, universitária, leitora ávida, amante das artes.
Tecnologia do Blogger.