Neverland não não também não

domingo, 22 de fevereiro de 2015

Doctor

 

 
 

  A noite havia apenas começado para o mundo. Mas para uma criança já era hora de dormir. E para a vovó também. Ela dormira no sofá e sempre que a menina se aproximava e aconselhava que fosse para a cama, a velhinha dizia que estava vendo TV. Não querendo mais insistir, quando ela adormecera novamente, a criança lhe acomodou melhor e lhe cobriu, desligando a televisão e indo para seu quarto logo em seguida.

  Seus pais tinham ido a uma festa e a deixara com sua avó. Eles faziam isso algumas vezes, e ela até mesmo gostava: conversava e brincava com sua avó e esperava na janela o Peter Pan chegar. Sonhara com ele inúmeras vezes, mas gostava de crer que não eram sonhos, que ele a fazia pensar que o eram. Acreditava ainda mais porque apenas sonhava com ele quando sua avó cuidava dela e acabava dormindo no sofá.

  Sentadinha perto da janela, olhando para o céu, encantada com a lua e esperando algo que não sabia se chegaria. Analu suspirou, e junto com seu suspiro lágrimas escorreram de seus olhinhos. Queria viver uma vida de sonhos, não uma vida de fatos.

  Para sua surpresa ouvira um barulho. Um barulho que nunca conseguiria reproduzir, mas que fazia sua mente se encher de possibilidades. Algo surgira em seu quintal e ela simplesmente não conseguia ver por causa de uma árvore que estava na frente. Levantara-se de um salto e se esforçava para tentar ver, mas não conseguia. Descera as escadas correndo, mas se preocupando em não fazer barulho, e abrira a porta, escondendo-se atrás dos arbustos e da árvore.

  Seria uma fada? Um elfo? Um gnomo? Não, parecia-lhe muito barulhento para tal. Um gigante?! Seria muito ruim se o fosse, não tinha nem ao menos uma espada... Talvez pudesse usar seus poderes mágicos... Que ainda não tinham se manifestado. Má ideia. Mas se fosse um gigante, pelo menos um herói iria salvá-la. Ao menos, ela esperava.

  Estava difícil de ver sem ser vista, e Analu tinha um pouco de medo por trás de todas as suas esperanças. Enfim, rapidamente, ela remexeu os arbustos, e com olhinhos atentos viu uma grande caixa azul. Uma grande caixa azul que nunca estivera no seu quintal e que não poderia aparecer ali tão repentinamente se não fosse por mágica.

  Seu coração acelerou ao ver a porta da caixa abrindo. Estava repleta de expectativas. Um pé saíra. Poderia ser um elfo, ainda que estivesse calçado. Poderia ser um rei. E, de uma vez, a criatura saíra. Era um homem. Um homem muito engraçado por sinal. Por que ficara dentro de uma caixa que lhe parecia tão boba? Ainda assim, não teve vontade de rir. Não era nada do que tinha imaginado. E mais: poderia estar em perigo pó estar relativamente perto de um desconhecido. Sentindo-se uma tola completa, começou a se esgueirar para casa.

  - Mas não é possível que eu tenha caído no lugar errado de novo! Você está ficando cada dia mais difícil de lidar. – o homem apontava e brigava com a caixa.

  Agora, Analu tivera vontade de rir. Além de parecer engraçado e bobo, ainda era louco. Ainda assim, prendeu o riso e, bem devagar, continuou se esgueirando. Por um momento teve a sensação de que seus olhos pousaram nela, mas logo em seguida ele desviara, e sorrindo começou a andar em círculos.

  - Bem, que bom que estou sozinho e não estou sendo observado. Afinal, seria muito chato se alguém me visse falando sozinho e... – puxara algo do bolso e atirara para a direção da menina.

  Analu retesou-se completamente e gritou, assustada. Entretanto, ficou muitíssimo surpresa ao ver que ele segurava algo parecido com uma caneta e que o som não fora de um tiro e sim algo que ela, novamente, tinha dificuldade de reproduzir. E, ainda mais, havia uma estrutura de ferro jogada próxima ao homem.

  – E me visse finalmente fazer esse bicho sossegar. – ele se abaixara e acariciara a estrutura. – Prometo que vai ser concertado. Foi uma pena o que aconteceu.

  Ciente de que sua posição fora dedurada pelo seu grito, Analu venceu sua curiosidade e pavor e saiu correndo em direção a porta da casa.

  - Ei, espere. Não vou lhe fazer mal. – ele disse andando na direção dela. – Mas ela já se trancara, arfando. – Isso pode soa exatamente como alguém que lhe faria mal diria... – disse mais para si do que para ela. -Sou bonzinho. Eu prometo.

  Ele encostara-se na porta e continuara a tentar conversar com a menina que percorria toda a casa trancando portas e janelas, voltando por fim à porta que levava ao quintal e o ouvindo continuar a dizer.

  - Escute. Estou apenas pedindo desculpas por incomodar a sua noite. Você não viu nada demais, está tudo bem e não vai se repetir. Foi apenas um sonho.

  - Um sonho? – ela perguntara, finalmente, lhe pegando pelo ponto fraco. – Mesmo?

  - Mesmo.

  - O que era aquilo no chão? De onde veio?

  - Era um Mephisto Canibas Electrofazen do Planeta G...

  - Um o quê? – ela perguntou, fazendo-o rir.

  - Um cão robô. – amaciou.

  - Você matou ele. Você mente. – ela recuou.

  - Não, ele está vivo. Ele está apenas com alguns problemas de conexão devido a um vírus... Na verdade, um tipo de raiva. Então eu dei uma anestesia nele e pra ele ficar saudável de novo. Entendeu?

  - Uhum. – Analu recuava sem saber se acreditava ou se simplesmente acordava sua avó, ligava para seus pais ou para a polícia.

  - Agora eu vou embora.

  - Tchau.

  - Tchau.

  Ela ouviu seus passos indo embora e então, pegou o telefone sem fio e saiu correndo para seu quarto, olhando pela janela. Viu-o recolher o animal de metal do chão e caminhar de volta para a caixa azul que não era visível dali. Analu se escondia nas cortina, mas mesmo assim ele olhou em sua direção e acenou com a mão livre. Tinha um sorriso singelo e um nariz simpático.

  Ela, quase involuntariamente, acenou de volta. Por um momento, percebeu que ele falara em planeta. Poderia ser um herói. Ou um rei de outro planeta. Não parecia possível que o fosse sendo tão esquisito. Era um sonho. Sendo assim, abriu sua janela, e ouviu-o dizer novamente:

  - Tchau!

  - Tchau pra sempre!

  - Pra sempre? – ele pareceu interessado.

  - Você não vai voltar.

  - Sou tão feio assim pra você querer tanto não me ver nunca mais?

  - É muito feio. – ela prendeu o riso. Na verdade, ele lhe parecia até bonitinho, mas não admitiria isso pra um estranho.

  - Como quiser, senhorita. – fez uma pequena reverência. – Tchau para sempre!

  E entrou na caixa azul. Analu fechou os olhos, sabendo que quando os abrisse novamente, estaria em sua cama e triste por saber que era apenas um sonho.

  - Diga ao Peter Pan que não vou limpar a casa dele mais. – disse antes de novamente abrir os olhos e... E não estar acordando em sua cama! Era um sonho difícil de acordar.

  - Pois, não digo! É um menino muito chato! – o homem voltara a sair da caixa.

  - Você disse tchau para sempre e ainda está aqui!

  - Foi você quem voltou a conversar! – ele cruzou os braços.

  - Você é muito carente!

  - E você é muito reclamona! Nem mesmo agradeceu porque te salvei de um cão raivoso!

  - Obrigada. – e fechou a janela, emburrada. Viu-o ir embora mais uma vez, quando deu-se conta do que ele havia falado. Abriu novamente a janela. – Como você sabe que ele é chato?

  - Eu o conheço o suficiente.

  - Mentiroso.

  - Tão chato quanto você.

  - Chato é você! – ela cruzou os braços, pronta para revidar ainda mais. Entretanto, ouviu um rosnado atrás de si e viu um cão de metal raivoso.

  Jogou-se em sua cama e conseguiu desviar do primeiro ataque. Ele corria de forma bastante eficiente para um cão com patinhas tão curtas, mas Analu tinha o coração de uma aventureira e a adrenalina a fazia corre rápido. Rolara da cama e desviara de outro ataque. Mas seu quarto não era tão grande e não podia levá-lo para o resto da casa, pondo a avó em perigo.

  Para seu alívio, logo o homem estava pendurado na sua janela terminando de partir as últimas finas grades de proteção que sempre a incomodaram.

  - Ei, totó! – apontara-lhe a caneta e uma luz azul saíra dela, derrubando o cão logo em seguida. – Eu devia ter tido uma pontaria melhor da primeira vez. Peço que me desculpe por isso. Acho que você pode inventar uma boa desculpa quanto a grade, não pode? – ela assentiu. - Agora vou embora mesmo.

  - Obrigada.

  - Não foi nada. – ele bagunçou-lhe os cabelos e voltou a sair com o animal metálico. – Eu darei o recado.

  - Não se esqueça. – Analu colocou as mãos na cintura.

  - Pensando bem, creio que vou me esquecer. – brincou.

  - Ele também esqueceu. – ela olhou tristemente para seus pezinhos descalços.

  - Então, por que você não vê comigo pra lembrá-lo?

  - Para Neverland?! Você sabe como chegar? – seus olhos se iluminaram.

  - Segunda estrela à direita e então...

  - Direto até o amanhecer. – ela saltou de alegria. – E se a gente se perder?

  - Minha nave faz a gente se achar.

  - Uma nave, um cão robô, um narigudo engraçado e uma garotinha indo para Neverland?! É uma história fantástica!

  - Devo concordar. – ele sorriu e estendeu-lhe a mão. – Pronta?

  - Eu não deveria ir com um estranho. Além do mais, minha avó pode acordar.

  - Quando você ia com o Peter Pan você voltava sempre na mesma hora, não era? Pois então, também posso fazer isso. Além disso, estamos em um sonho e em sonhos...

  - Tudo pode acontecer.

  - Exatamente. E então, o que me diz?

  - Estou pronta. – tomou-lhe a mão.


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